17 de novembro de 2014
31 de outubro de 2014
497 ANOS DA REFORMA: REVISITANDO AS 95 TESES DE LUTERO
Em 2017 o mundo cristão
celebrará os 500 anos da Reforma Protestante, liderada por Martin Luther, na
Alemanha – e perseguida por mártires cristãos através dos séculos anteriores. A
preparação a essa celebração deve ser feita com muita reverencia a Deus,
fidelidade as Escrituras e zelo apostólico pela prática da verdade.
Infelizmente grande número de religiosos vem sendo enganados por velhas
heresias com roupagem nova, como se Deus fosse um negociante de bênçãos. As
novas indulgencias, contra as quais Lutero arriscou a própria vida, estão sendo
pregadas através de canais de TV, grandes catedrais neo-pentecostais e por
ordens religiosas que enriquecem à custa de superstições populares que
contrariam ensinos centrais da Palavra de Deus.
Relendo as 95 teses de
Lutero, afixadas na porta da Catedral de Wittemberg, podemos discernir a
necessidade de uma nova Reforma, no coração e mente de cada cristão, num mundo
cada vez mais secularizado e egoísta, onde tendências religiosas deixam o culto
teocêntrico para o culto antropocêntrico – voltado para a satisfação da cobiça
e dos desejos humanos, e não mais para a Glória de Deus.
1. Ao dizer: “Fazei penitência”, etc.
[Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis
fosse penitência.
2. Esta penitência não pode ser
entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação
celebrada pelo ministério dos sacerdotes).
3. No entanto, ela não se refere apenas
a uma penitência interior; sim, a
penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de
mortificação da carne.
4. Por consequência, a pena perdura
enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior),
ou seja, até a entrada do reino dos céus.
-
Jesus fala-nos sobre o preço do discipulado cristão: “Se alguém quiser
acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois
quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas quem perder a sua vida por minha
causa, este a salvará” (Lucas 9.23-24).
5. O papa não quer nem pode dispensar
de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.
6. O papa não tem o poder de perdoar
culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou,
certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de
observar essas limitações, a culpa permaneceria.
7. Deus não perdoa a culpa de qualquer
pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu
vigário.
8. Os cânones penitenciais são impostos
apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos
moribundos.
9. Por isso, o Espírito Santo nos
beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a
circunstância da morte e da necessidade.
10. Agem mal e sem conhecimento de
causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para
o purgatório.
11. Essa cizânia de transformar a pena
canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos
certamente dormiam.
12. Antigamente se impunham as penas
canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira
contrição.
13. Através da morte, os moribundos
pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito,
isenção das mesmas.
14. Saúde ou amor imperfeito no
moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor
for o amor.
15. Este temor e horror por si sós já
bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório,
uma vez que estão próximos do horror do desespero.
16. Inferno, purgatório e céu parecem
diferir da mesma forma que o desespero, o semi-desespero e a segurança.
17. Parece necessário, para as almas no
purgatório, que o horror devesse diminuir à medida que o amor crescesse.
18. Parece não ter sido provado, nem
por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora
do estado de mérito ou de crescimento no amor.
19. Também parece não ter sido provado
que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não
todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.
- A Bíblia nunca se refere a um lugar, após
a morte física, onde alguém possa ser
purificado de seus pecados. De preferência ela fala de uma Pessoa através da
qual podemos ser purificados: Jesus Cristo. Deus avisa que aquele que se recusa
a confiar em Cristo para se purificar de seus pecados é condenado: Quem nele crê não é julgado; quem não crê, já
está julgado, porque não creu no nome do filho único de Deus (João 3:18). Só há
duas verdades: Quem crê no Filho tem a vida eterna. Quem recusa crer no Filho
não verá a vida. Pelo contrário, a ira de Deus permanece sobre ele (João 3:36);
A pessoa eleita por Deus e que por isso crê em Jesus Cristo, está completamente
salva: Portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo
Jesus (Romanos 8:1). Se não há
condenação, então ficam eliminadas as chamas do Purgatório. No entanto o
próprio Jesus Cristo falou muito a respeito do inferno, que o Apocalipse
refere-se a “segunda morte” (Ap.21.8)
20. Portanto, por remissão plena de
todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que
ele mesmo impôs.
21. Erram, portanto, os pregadores de
indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas
indulgências do papa.
22. Com efeito, ele não dispensa as
almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam
ter pago nesta vida.
23. Se é que se pode dar algum perdão
de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto
é, pouquíssimos.
24. Por isso, a maior parte do povo
está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa
de absolvição da pena.
-
Lutero condena enfaticamente a venda, o herético e escandaloso comércio do perdão,
através de indulgência e sem necessidade de arrependimento por parte do
pecador. Jesus foi claro ao dizer: “EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA,
NINGUÉM VEM AO PAI, SENÃO POR MIM” (S. João 14.6). O perdão é dádiva de Deus,
conquistado na Cruz do Calvário. O arrependimento humano vem através da
convicção de pecado pela ação do Espírito Santo na vida do cristão. Atos 2.38:
“ Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo para
perdão de seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo”. A confissão a um sacerdote tem efeito psicológico
salutar, porém o perdão vem unicamente de Deus ao penitente.
25. O mesmo poder que o papa tem sobre
o purgatório de modo geral, qualquer
bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.
26. O papa faz muito bem ao dar
remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de
intercessão.
27. Pregam doutrina mundana os que
dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do
purgatório para o céu].
-
Novas denominações, chamadas neo-pentecostais, entre outras, vêm abusando da graça de Deus,
exigindo de seus fiéis ofertas alçadas como forma de adquirir as bênçãos de
Deus. Praticam o ensino da indulgencia, não mais como forma de perdão papal,
mas como aval para a conquista de bens materiais e/ou espirituais. Essa heresia
tem que ser combatida e denunciada por pastores fiéis a santas Escritura. Erram e conduzem ao erro as ovelhas do Senhor.
A exortação de Jesus aos religiosos e seu bom conselho devem nortear a vida
cristã: “Errais não conhecendo as
Escrituras nem o poder de Deus” (Mateus 22.29).
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na
caixa, pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém,
depende apenas da vontade de Deus.
29. E quem é que sabe se todas as almas
no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São
Severino e São Pascoal?
30. Ninguém tem certeza da veracidade
de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.
31. Tão raro como quem é penitente de
verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.
32. Serão condenados em eternidade,
juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação
através de carta de indulgência.
33. Deve-se ter muita cautela com
aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de
Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.
34. Pois aquelas graças das
indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental,
determinadas por seres humanos.
35. Os que ensinam que a contrição não
é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas
incompatíveis com o cristão.
36. Qualquer cristão que está
verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que
são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.
37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo
ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons
de Deus, mesmo sem carta de indulgência.
-
“... Quando Cristo veio ao mundo, disse: “Sacrifício e oferta não quiseste, mas
um corpo me preparaste; de holocaustos e ofertas pelo pecado não te agradaste.
Então eu disse: Aqui estou, no livro está escrito a meu respeito; vim para
fazer a tua vontade, ó Deus”.
38. Contudo, o perdão distribuído pelo
papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão
divina.
39. Até mesmo para os mais doutos
teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de
indulgências e a verdadeira contrição.
40. A verdadeira contrição procura e
ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz
odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto.
41. Deve-se pregar com muita cautela
sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente
como preferíveis às demais boas obras do amor.
42. Deve-se ensinar aos cristãos que
não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma,
ser comparada com as obras de misericórdia.
43. Deve-se ensinar aos cristãos que,
dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se
comprassem indulgências.
44. Ocorre que através da obra de amor
cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela
não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.
-
Em sua Carta aos Efésios Paulo, inspirado, fala sobre o fundamento da salvação
em Cristo: “Porque vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem
de vocês, é dom de Deus; não por obras,
para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo
Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós
praticarmos” (Efésios 2.8-10). Portanto está claro que as boas obras são consequência
da salvação pela graça e não meio de alcançar a salvação. Mesmo entre evangélicos pentecostais há compreensão de que o cristão pode "perder a salvação"
se se desviar da verdade sem arrependimento. A Bíblia ensina sobre o fato de que Deus não salva por obras, merecimento, religião ou virtude própria", mas unicamente pela Graça manifesta e realizada integralmente na Cruz do Calvário. Jesus mesmo disse: "Todo aquele que vier a mim de maneira nenhuma lançarei fora" (João 6.37)
45. Deve-se ensinar aos cristãos que
quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si
não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.
46. Deve-se ensinar aos cristãos que,
se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua
casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.
47. Deve-se ensinar aos cristãos que a
compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.
48. Deve ensinar-se aos cristãos que,
ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade)
de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.
49. Deve-se ensinar aos cristãos que as
indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém,
extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.
50. Deve-se ensinar aos cristãos que,
se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria
reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os
ossos de suas ovelhas.
-
A Bíblia nos ensina que somos santuário. Lemos em Atos 17.24-25: “O Deus que
fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor do Céu e da Terra, e não habita em
santuários feitos por mãos humanas. Ele
não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque Ele
mesmo dá a todos, a vida, o fôlego e as demais coisas”.
51.
Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a
dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências
extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender
a Basílica de S. Pedro.
52. Vã é a confiança na salvação por
meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio
papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.
53. São inimigos de Cristo e do Papa
aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a
palavra de Deus nas demais igrejas.
54. Ofende-se a palavra de Deus quando,
em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.
55. A atitude do Papa necessariamente
é: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque
de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante)
deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.
56. Os tesouros da Igreja, a partir dos
quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem
conhecidos entre o povo de Cristo.
57. É evidente que eles, certamente,
não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão
facilmente, mas apenas os ajuntam.
58. Eles tampouco são os méritos de
Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser
humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.
59. S. Lourenço disse que os pobres da
Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era
usada em sua época.
60. É sem temeridade que dizemos que as
chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem
estes tesouros.
61. Pois está claro que, para a
remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é
suficiente.
62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o
santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63. Mas este tesouro é certamente o
mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.
64. Em contrapartida, o tesouro das
indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.
65. Portanto, os tesouros do Evangelho
são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.
66. Os tesouros das indulgências, por
sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.
67. As indulgências apregoadas pelos
seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como
tais, na medida em que dão boa renda.
68. Entretanto, na verdade, elas são as
graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69. Os bispos e curas têm a obrigação
de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.
70. Têm, porém, a obrigação ainda maior
de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses
comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi
incumbidos pelo papa.
71. Seja excomungado e amaldiçoado quem
falar contra a verdade das indulgências apostólicas.
72. Seja bendito, porém, quem ficar
alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de
indulgências.
73. Assim como o papa, com razão,
fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de
indulgências,
74. muito mais deseja fulminar aqueles
que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.
75. A opinião de que as indulgências
papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse
violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.
76. Afirmamos, pelo contrário, que as
indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que
se refere à sua culpa.
77. A afirmação de que nem mesmo São
Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é
blasfêmia contra São Pedro e o Papa.
78. Dizemos contra isto que qualquer
papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as
virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em I
Coríntios XII.
79. É blasfêmia dizer que a cruz com as
armas do papa, insigneamente erguida, eqüivale à cruz de Cristo.
80. Terão que prestar contas os bispos,
curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o
povo.
81. Essa licenciosa pregação de
indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a
dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida argutas, dos leigos.
82. Por exemplo: Por que o papa não
esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das
almas – o que seria a mais justa de todas as causas, se redime um número
infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da
basílica – que é uma causa tão insignificante?
83. Do mesmo modo: Por que se mantêm as
exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite
que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é
justo orar pelos redimidos?
84. Do mesmo modo: Que nova piedade de
Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo
redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da
necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?
85. Do mesmo modo: Por que os cânones
penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda
assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda
estivessem em pleno vigor?
86. Do mesmo modo: Por que o papa, cuja
fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu
próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo
com o dinheiro dos pobres fiéis?
-
Essa advertência de Lutero contra a insaciável cobiça de Roma tem paralelo em
nosso tempo, em ordens religiosas e novas denominações que relativizaram a
verdade bíblica e impõe a seus seguidores a continua entrega de ofertas em
dinheiro, bens e trabalho voluntário – dessa forma construindo fortunas das
denominações, templos luxuosos e
fortunas pessoais de líderes das mesmas.
Pedro exortou aos líderes da igreja: “Apelo aos presbíteros que há entre
vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos
sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada:
pastoreiem o rebanho de Deus que está a seus cuidados. Olhem para ele, não por
obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância,
mas com o desejo de servir. Não hajam como dominadores dos que lhes foram
confiados, mas como exemplo para o rebanho” (1ª Pedro 5.1-3)
87. Do mesmo modo: O que é que o papa
perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena
remissão e participação?
88. Do mesmo modo: Que benefício maior
se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma
vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia
a qualquer dos fiéis?
89. Já que, com as indulgências, o papa
procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas
e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?
90. Reprimir esses argumentos muito
perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões,
significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos
infelizes.
91. Se, portanto, as indulgências
fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas
objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.
92. Portanto, fora com todos esses
profetas que dizem ao povo de Cristo “Paz, paz!” sem que haja paz!
93. Que prosperem todos os profetas que
dizem ao povo de Cristo “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!
94. Devem-se exortar os cristãos a que
se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do
inferno.
95. E que confiem entrar no céu antes
passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz.
Para
os cristãos bíblicos nenhum líder espiritual pode advogar a si como
representante de Deus na terra. Nenhum ser humano pode ser alvo da devoção
religiosa, culto ou idolatria. A Bíblia é clara, conforme os 10 Mandamentos: “Não
terás outros deuses além de mim. Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem
de qualquer coisa no céu, na terra, nas águas debaixo da terra. Não te
prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor teu Deus,
sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a
terceira e quarta geração, mas trato com bondade até mil gerações aos que me
amam e obedecem os meus mandamentos” ( Êxodo 20.2-6)[i]
(José Julio de Azevedo)
[i] Na
Bíblia de Jerusalém – Edições Paulinas
– a tradução é: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem
esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus, ou
embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não te prostrarás
diante desses deuses e não os servirás, porque eu, Iahweh teu Deus, sou Deus
ciumento, que puno a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta
geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração
para aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”.
3 de abril de 2014
JOSE DE ANCHIETA, CARRASCO DE UM CALVINISTA FRANCÊS?
José de Anchieta, Villegaignon e os Calvinistas
no Rio de Janeiro, no século XVI
Não se tratou de um conflito político,
de disputa territorial entre Holanda e Portugal - como ocorreu no Nordeste,
provocando vítimas dos dois lados. A saga dos protomártires1
cristãos, no Brasil, teve seu palco a milhares de quilômetros ao sul do Rio
Grande do Norte - terra dos 30 beatificados, em 5.3.2000, pelo papa João Paulo
II - e ficou conhecida, na História, como A Tragédia da Guanabara. Durante séculos houve a tentativa de canonizar santo um dos pioneiros da evangelização católica no Brasil, José de Anchieta - até hoje ele era considerado apenas um beato. Talvez com a chegada de um franciscano ao papao é que José de Anchieta fosse entronizado no panteão da devoção católica, levado á categoria de santo. Porém há uma mancha indelével na história desse sacerdote, documentada por um de seus pares, o Frei Vicente do Salvador, em sua HISTORIA DO BRASIL. Veja a história:
José de Anchieta
No dia 9 de fevereiro de 1558 três
calvinistas sofreram batismo de sangue na Ilha
de Coligny, hoje Fortaleza de
Villegaignon, na Baia de Guanabara-RJ. Ficou claramente documentado que
eles foram sacrificados por causa da irredutível defesa da fé cristã, e bíblica
- da mesma forma que reformadores como o mártir João Huss, entre outros. Testemunharam sua fé porque amaram mais a
verdade revelada nas Escrituras Sagradas do que a suas próprias vidas.
Já no litoral brasileiro, onde a
expedição chegou aos 10.11.1555, Villegaignon passou a usar os colonos como
servos, em condições cada vez mais degradantes. Depois de enfrentar uma
rebelião, da qual não houve participação de calvinistas, Villegaignon solicitou
ministros evangélicos de Genebra - capital calvinista da Suíça - que vieram
acompanhados de um grupo de huguenotes leigos, liderados por Felipe de Corguillerai - senhor Du Pont
- amigo de Coligny. Os acompanharam,
atraídos pelas falsas promessas de Villegaignon, os calvinistas leigos: Pierre Bourdon (torneiro), Matthieu Verneuil, Jean do Bourdel, André
La Fon (alfaiate), Nicolas Denis,
Jean Gardien (retratista), Martin
David, Nicolas Raviquet, Nícolas Carmeau, Jacques Rousseau e Jean Lery
(este último historiador da viagem). Além desses calvinistas devemos lembrar
que, na verdade, a maioria era composta de católicos romanos. A comitiva havia
partido de Genebra a 16 de setembro de 1556, passando por Paris onde outras
pessoas aderiram a expedição - entre eles Jacques
Le Balleur, que seria um dos protomártires da fé evangélica, no continente,
em território dominado pelos portugueses. No dia 19 de novembro de 1556 três
navios deixaram o mar da Normandia em direção ao Brasil, trazendo 290
passageiros - sendo que apenas 16 deles eram calvinistas.
Esses pastores, como os leigos
nomeados, chegaram ao Forte Coligny
a 10 de março de 1557, recebidos por Villegaignon, a quem apresentaram suas
credenciais assinadas por João Calvino
- regressando meses depois, a Europa, sob ameaças do tirano. Villegaignon logo
passara a questionar princípios de fé do ministro Pierre Richier - ex-frade carmelita convertido ao Protestantismo -
e de Guillaume Chartier,
missionários que vieram para pastorear os imigrantes e evangelizar nativos.
Eis como o historiador presbiteriano, Rev. Álvaro Reis - baseado na obra de Jean Lery - descreveu o primeiro culto
protestante, realizado em território brasileiro, naquele mesmo dia:
“...Reunindo-se
todos numa sala que havia no meio da ilha, e depois que Pierre Richier invocou
a presença do Divino Espírito Santo, cantou-se o Salmo Quinto...Após este
cântico, Richier fez um eloqüente sermão tomando por tema o Salmo 27, versículo
4, segundo a excelente tradução do ex-Padre Sanctos Saraiva: “Uma coisa tenho
pedido a JEHOVAH a qual eu buscarei; que assista eu na casa de JEHOVAH, todos
os dias da minha vida, para de JEHOVAH contemplar o esplendor, e recrear-me em
Seu Templo”. Durante a prédica, Villegaignon não cessava de juntar as mãos,
levantar os olhos para o céu, dar altos suspiros e fazer vários gestos que a
todos causavam admiração”.[1]
Jean
Cointac, um dos membros da
comitiva, acadêmico da Sorbonne, começou a questionar, junto a Villegaignon, a
prática da primeira Igreja Reformada da América, com relação a Ceia do Senhor, celebrada pela primeira
vez no Brasil em 21 de março de 1557. Cedendo aos argumentos de Cointac,
Villegaignon começou impor preceitos
heréticos aos ministros (Uma regressão ao romanismo: transubstanciação,
invocação dos santos, orações pelos mortos, crença no purgatório, sacrifício da
missa, etc.). Os pastores recusavam-se a negar as Escrituras, defendendo-a como
única regra de fé e prática dos
reformados - preceito que perdura entre os evangélicos históricos, até nossos
dias. Tal foi a pressão que os fiéis deixaram a fortaleza e foram para o
continente, em outubro de 1557, convivendo pacificamente com indígenas e
alimentando-se de raízes e frutas. Dois ministros e alguns fiéis, ameaçados por
vilegagnon, regressaram a Europa em condições precárias. Cinco deles resolveram
ficar, por falta de víveres suficientes no navio que regressava. Voltaram a
Ilha de Coligny, sob a promessa de bom tratamento, depois de quase naufragarem
no barco que os levava de volta ao litoral .
Planejando matar os calvinistas que
ficaram - aos quais logo começou a maltratar - Villegaignon exigiu que
escrevessem uma confissão de fé - que usaria como argumento junto à Corte
francesa2 . Jean
du Bourdel, redigiu-a baseado unicamente na Bíblia e sua memória3 . Foi assinada também por Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon e André la
Fon - todos leigos. Erasmo Braga, o tradutor do documento, para o
Português, apreciou-a: “Definições concisas, admirável e profunda. A
mentalidade de du Bourdel era, por certo, de um poder admirável, para produzir,
em circunstâncias de tanto sofrimento, respostas precisas e profundamente
teológicas. É uma confissão calvinista; é a confissão dos nossos maiores:
responde particularmente às heresias de Roma - é a primeira confissão redigida
na América, na primeira Igreja do Brasil. E foi selada com sangue”.
Ao lê-la
o almirante Villegaignon declarou “heréticos
e pestíferos” vários de seus artigos. Ameaçou seus signatários de morte
imediata, se obstinassem em sustentá-la. Diante da irredutível firmeza,
Villegaignon ordenou ao carrasco que algemasse os braços e mãos de Jean du Bourdel, conduzindo-o a uma
rocha, junto ao mar. Ao passar pela prisão, onde estavam seus irmãos em Cristo,
clamou para que mantivessem a coragem e o testemunho. Caminhou para a morte
entoando louvores a Deus. Já sobre o recife, dobrou os joelhos, confessou e
entregou a Deus o seu espírito - sendo, em seguida, bruscamente atirado ao mar,
pelo carrasco - constantemente ameaçado pela impaciência do almirante. Em
seguida arrastaram Matthieu Verneuil.
Antes de ser lançado ao mar clamou: “Senhor Jesus, tem piedade de mim”. André La-Fon, por falta de fé, renegou
a confissão e foi poupado da morte. Em seguida foi executado Pierre Bourdon - depois de ter sido
trazido do litoral, onde enfermara. Negou-se abjurar e foi sufocado,
estrangulado, e lançado ao mar, da mesma forma que fizeram com os outros dois
protomártires. O quinto huguenote3, Jacques le Balleur - conforme o
historiador Rocha Pombo (História do
Brasil, vol III, pág 514), seria enforcado no Rio de Janeiro em 1567, em cuja
execução o jesuíta José de Anchieta teria participado
ativamente, como carrasco.
Rocha Pombo não inventou essa história.
Ele baseou-se na obra “História do Brasil, 1500 a 1627, de Frei Vicente do Salvador. Podemos ler,
na primorosa edição da Melhoramentos, na edição Comemorativa do 4º Centenário
do autor:
“Entre os primeiros franceses que vieram ao Rio de Janeiro em companhia de Nicolau Villaganhon, de que tratamos no capitulo oitavo deste livro, vinha um herege calvinista chamado João Bouller, o qual fugiu pêra a capitania de São Vicente, onde os portugueses o receberam cuidando ser católico, e como tal o admitiram em suas conversações, por ser ele também eloqüente e universal na língua espanhola, latina, grega, e saber alguns princípios da hebréia, e versado em alguns lugares da Sagrada Escritura(...)”.
“Entre os primeiros franceses que vieram ao Rio de Janeiro em companhia de Nicolau Villaganhon, de que tratamos no capitulo oitavo deste livro, vinha um herege calvinista chamado João Bouller, o qual fugiu pêra a capitania de São Vicente, onde os portugueses o receberam cuidando ser católico, e como tal o admitiram em suas conversações, por ser ele também eloqüente e universal na língua espanhola, latina, grega, e saber alguns princípios da hebréia, e versado em alguns lugares da Sagrada Escritura(...)”.
Veja o relato escrito por um historiador católico, sacerdote submisso a Roma, incriminando com toda clareza ao hoje canonizado santo, José de Anchieta:
“Achou-se
ali pêra a ajudar a bem morrer o padre Joseph de Anchieta, que já então era
sacerdote, e o tinha ordenado o mesmo bispo D. Pedro Leitão e, posto que no
princípio o achou rebelde, não premitiu a divina providência que se perdesse
aquela ovelha fora do rebanho da igreja, senão que o padre com suas eficazes
razões, e principalmente com a eficácia da graça o reduzisse a ela. Ficou o
padre tão contente deste ganho, e por conseguinte tão receoso de o tornar a
perder que, vendo ser o algoz pouco destro em seu ofício e que se detinha em
dar a morte ao réu e com isso o angustiava e o punha em perigo de renegar a
verdade que já tinha confessada, repreendeu o algoz e o industriou para que
fizesse com presteza seu ofício, escolhendo antes pôr-se a si mesmo em perigo
de incorrer nas penas eclesiásticas, de que logo se absolveria, que arriscar-se
aquela alma às penas eternas. Como são estes que desculpa a divina dispensação
e a caridade, que é sobre toda a lei, e, sem isto, mais são pêra admirar que
pêra imitar”.
Da mesma
forma que o escritor, Frei Vicente do Salvador, incrimina o beato, ora
canonizado “santo”, registra o fato de que José de Anchieta , diante da dúvida
do carrasco, tenta justificar Anchieta do ato criminoso de condenar um
inocente à morte.
Conforme
o Rev. Álvaro Reis - em sua
refutação a historiadores como Cândido Mendes de Almeida, Carlos de Laet e
Capistrano de Abreu - o ministro huguenote Jacques
le Balleur - fugindo de Villegaignon numa canoa de índios tamoios - foi
preso pelo padre Luiz da Grã em
1559, em São Vicente, por estar a evangelizar seus habitantes. Analisando
documentos oficiais de jesuítas do século XVI e XVII o historiador
presbiteriano afirma que le Balleur
foi detido e depois enviado à Bahia, sendo torturado, posto a ferros e preso em
uma masmorra. Em sua tese, Álvaro Reis transcreve um trecho da “História do Brasil” de Frei Vicente Salvador, de 1627,
conforme original da Biblioteca Nacional:
“Entre os
primeiros franceses, que vieram ao Rio de Janeiro, em companhia de Niccolau
Villegaignon, vinha um herege calvinista chamado João Bouller[2], o qual fugiu
para a Capitania de S. Vicente, onde os portugueses o receberam, cuidando ser
católico, e como tal o admitiram em suas conversações, por ser também na sua
eloqüente, e universal na língua espanhola, latina, grega, e saber alguns
princípios da hebréia, e versado em alguns lugares da Escritura Sagrada, com os
quais entendidos a seu modo dourava as pílulas e encobria o veneno aos que o
ouviam e vinham morder algumas vezes na autoridade do Sumo Pontífice, no uso
dos Sacramentos, no valor das Indulgencias e na veneração das Imagens. Contudo
não faltou quem o conhecesse (que ao lume da Fé nada se esconde), e o foram
denunciar ao bispo, o qual o condenou como seus erros mereciam, e sua
obstinação que nunca quis retratar-se; pelo que o remeteu ao governador, o qual
o mandou à vista de outros, que tinham cativos na última vitória, morresse às
mãos de um algoz. Achou-se ali para o ajudar a bem morrer o Padre Joseph de
Anchieta, que já era então Sacerdote, e o tinha ordenado o mesmo Bispo D. Pedro
Leitão, e posto que no principio o achou rebelde não permitiu a Divina
Providencia que se perdesse aquela ovelha fora do rebanho da Igreja, senão que
o Padre com suas eficazes razões e principalmente com a eficácia da graça o
reduzisse a ela, ficou o Padre tão contente desse ganho, e por conseguinte tão
receoso de o tornar a perder, que vendo ser o algoz pouco dextro em seu ofício, e que se detinha em dar a morte ao
réu, e com isso o angustiava, e o punha em perigo de renegar a verdade, que já
tinha confessado, repreendeu o algoz, e o industriou para que fizesse com
presteza seu oficio, escolhendo antes por-se a si mesmo em perigo de incorrer
nas penas eclesiásticas, de que logo se absolveria, que arriscar-se aquela alma
às penas eternas. Casos são esses que desculpa a divina dispensação, e a
caridade, que há sobre toda a lei, e sem isto mais são para admirar que para
imitar”.[3]
Segundo Álvaro Reis, Frei Vicente Salvador fora
amigo e discípulo de Joseph de Anchieta,
e não teria nenhum motivo de incriminá-lo de participar, como carrasco
coadjuvante, da execução do mártir calvinista. A afirmação de que Balleur teria
renegado sua fé evangélica é temerária e certamente fraudulenta: mesmo depois
de anos, preso e torturado em uma masmorra, foi devolvido ao Rio de Janeiro,
onde foi supliciado sob as mãos do piedoso
jesuíta.
Villegaignon,
depois de regressar à França, viveu como parasita de alguns fidalgos emorreu desgraçadamente, sem arrepender-se de seus crimes.4
A CONFISSÃO DE FÉ DOS PROTOMÁRTIRES
Publicamos,
abaixo, alguns pontos importantes da primeira Confissão de Fé, escrita no continente americano. Em sua defesa os
protomártires do cristianismo, no Brasil, deixaram-se imolar a 9 de Fevereiro de 1558, pelas mãos do
carrasco de Villegaignon:I. Cremos em um só Deus, imortal e invisível, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas, tanto visíveis como invisíveis, o qual é distinto em três pessoas: O Pai, o Filho, e o Espírito Santo, que não fazem senão uma mesma substância em essência eterna e uma mesma vontade; o Pai fonte e começo de todo o bem; o Filho eternamente gerado do Pai, o qual, cumprida a plenitude do tempo, se manifestou em carne ao mundo, sendo concebido do Espírito Santo, nascido da Virgem Maria, feito sob a Lei para resgatar os que sob ela estavam, a fim de que recebêssemos a adoção de próprios filhos; o Santo Espírito, procedente do Pai e do Filho, mestre de toda a verdade, falando pela boca dos Profetas, sugerindo todas as coisas que foram ditas por Nosso Senhor Jesus Cristo aos apóstolos. Este é o único Consolador em aflição, dando constância e perseverança em todo bem. Cremos que é mister somente adorar e perfeitamente amar, rogar e invocar a majestade de Deus em fé ou particularmente”.
V. “Cremos no
Santíssimo Sacramento da Ceia....não entendemos dizer que o pão e o vinho sejam
transformados ou transubstanciados no corpo e sangue d’ele...Vejamos a
interpretação das palavras de Jesus Cristo: “Este pão é o meu corpo”. Tertuliano, no livro quatro contra
Marcion, explica estas palavras assim: “Este
é o signal e a figura do meu corpo”. S.Agostinho diz: “O Senhor não evitou dizer: - Este é o meu corpo, quando dava apenas o
signal de seu corpo”.
VI. “Cremos que,
se fosse necessário por água no vinho, os evangelistas e São Paulo não teriam
omitido uma coisa de tão grande importância”.
VII. Cremos que o
batismo é Sacramento de penitencia, e como uma entrada na Igreja de Deus, para
sermos incorporados em Jesus Cristo. Representa-nos a remissão de nossos
pecados passados e futuros, a qual é adquirida plenamente só pela morte de
nosso Senhor Jesus. De mais, a mortificação de nossa carne ai nos é representada e a lavagem, representada
pela água lançada sobre a criança, é sinal e selo do sangue de nosso Senhor
Jesus, que é a verdadeira purificação de nossas almas. ... Quanto aos
exorcismos, abjurações de satan, crisma, saliva e sal, nos os registramos como
tradições dos homens, contentando-nos só com a forma e instituição deixada por
nosso Senhor Jesus”.
X. ...”Quanto ao homem cristão, batizado no
sangue de Jesus Cristo, o qual caminha em novidade de vida, nosso Senhor Jesus
Cristo restitui nele o livre arbítrio, e reforma a vontade para todas as boas
obras, não todavia em perfeição, porque a execução de boa vontade não está em
seu poder, mas vem de Deus”...
XI. ...como
diz Santo Ambrosio, o homem é apenas o
ministro; portanto, se ele condena ou absolve, não é ele, mas a Palavra de Deus
que ele anuncia. Santo Agostinho neste lugar diz que não é pelo mérito dos
homens que os pecados são perdoados, mas pela virtude do Espírito Santo. Porque
o Senhor dissera a seus apóstolos: “Recebei
o Santo Espírito”; depois acrescenta: “Se
perdoardes a algum, seus pecados”, etc. Cypriano diz que o servidor não
pode perdoar a ofensa contra o Senhor”.
XII. “Quanto à imposição de mãos, essa serviu em seu
tempo, e não há necessidade de conservá-la agora, porque pela imposição das
mãos não se pode dar o Santo Espírito, porque isto só a Deus pertence”.
XV. “Não é lícito votar a Deus, senão o que Ele
aprova. Ora, é assim que os votos monásticos só tendem à corrupção do
verdadeiro serviço de Deus. É também grande temeridade e presunção do homem
fazer votos além da medida de sua vocação, visto que a Santa Escritura nos
ensina que a continência é um dom especial... Por isso, pois, os monges, padres
e outros tais que se obrigam e prometem viver em castidade tentam contra Deus,
por isso não está neles cumprir o que prometem”...
XVI. “Cremos que Jesus Cristo é o nosso único
Mediador, Intercessor e Advogado, pelo qual temos acesso ao Pai, e que,
justificados no seu sangue, seremos livres da morte, e por ele já reconciliados
teremos plena vitória contra a morte”...
XVII. “Quanto aos mortos, São Paulo (1 Ts VI) nos proíbe
entristecer-nos por eles, porque isto convém aos pagãos, que não tem esperança
alguma de ressuscitar. O Apostolo não manda e nem ensina orar por eles, o que
não teria esquecido, se fosse conveniente. Santo Agostinho, sobre o Salmos
XLVIII, diz que os espíritos dos mortos recebem conforme o que tiverem feito durante
a vida; que, se nada fizeram, estando vivos, nada recebem, estando mortos. Esta
é a resposta que damos aos artigos por nós enviados, segundo a medida e porção
da fé, que Deus nos deu, suplicando que lhe praza fazer que em nós não seja
morta, antes produza frutos dignos de seus filhos, e assim, fazendo-nos crescer
e perseverar nela, lhe rendamos graças e louvores para sempre. Assim seja”.
José Julio de Azevedo
Jornalista e pesquisador de História da Igreja Cristã no
Brasil;
Março/Abril,2000/3.2014
2.
Na França, sob o
reinado de Francisco II, a crescente intolerância e perseguição aos cristãos
reformados culminou com o Massacre de São Bartolomeu, em 1572,
quando cerca de seis mil huguenotes foram martirizados em Paris -
cerca de 60 mil outros calvinistas em toda a
França. O Atlas da História do Mundo
informa: “Em 1562 havia mais de um milhão
de protestantes, na França. A pressão militar católica, aliada à hostilidade
popular praticamente erradicou o protestantismo ao norte do rio Loire” . 3. Huguenote é uma designação depreciativa que os católicos franceses deram aos protestantes, especialmente aos calvinistas, e que estes adotaram (Cf. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Nova Fronteira-RJ, 1986.)
Bibliografia:
1. SALVADOR, Frei Vicente do. Obra: História do Brasil –
1500-1627. Edições Melhoramentos. São Paulo, 1965 (Edição
comemorativa do 4º Centenário do Autor) – Páginas 190-191.
2.
Jean Crespin, na sua obra- Histoire
des Martyres, tomo II. - citado por Domingos Ribeiro- Rio,
Agosto - 1917, no prefácio de sua tradução de “A Tragédia da Baia da Guanabara” - com grafia original. A Tragédia de Guanabara ou Historia dos Protomartyres do Christianismo
no Brasil. Rio de Janeiro: Typo-Lith, Pimenta de Mello & C 1917.
3.
BOURDEL, Jean du. Confissão de Fé - escrita por Du Bourdel entre 04.01.1558 e 09.02.1558,
no litoral brasileiro, Baia da Guanabara. Tradução de Erasmo Braga.
4. REIS,
Álvaro. O Martyr Le Balleur -
1567 - Refutação a monografia do Dr.
Cândido Mendes de Almeida sobre a
catástrofe de Bolles, publicada no Vol. 42 da Revista do Instituto
Histórico e Geográfico do Brasil, em artigos do Puritano, em 1907, e aos
artigos dos Drs. Carlos de Laet e Capistrano de Abreu. Rio de Janeiro:
1917.
5. HAHN, Carl Joseph. História do Culto Protestante no
Brasil. ASTE, São Paulo: 1986.
6. BARRACLOUGH, Geofrey
(Editor). Atlas da
História do Mundo. Empresa Folha da Manhã, São Paulo: 1995.
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