10 de outubro de 2012


A Biodiversidade e a 

mentalidade Rasteira

         
 Em nosso vasto Brasil viceja uma mentalidade rasteira, simplista, porém perniciosa e empobrecedora. Desde a sua descoberta essa mentalidade truculenta avançou sobre o País das Nações Indígenas. As terras foram sendo ocupadas graças ao conluio de políticos, militares e grileiros – isso depois das famosas entradas & bandeiras, na era do extermínio ou escravidão e deportação de índios, o saque do ouro, diamantes e terras.  O binômio “almas para o papa e terras para a coroa” ganhou novos contornos com o advento da República.
         Ao contrário das novelas da tevê, com suas aberrações urbanas, seu enredo e sua trilha sonora continuam a avançar sobre os últimos territórios a serem devastados por um tipo de civilização fundada no atraso espiritual, no desprezo ao ser humano em sua dignidade como ser “criado à imagem e semelhança de Deus” e na depredação do patrimônio natural cujos benefícios vão além das fronteiras do País – pois a terra é uma só e o todo interage e influencia cada uma das partes, e vice-versa. É fundamental que o Brasil avance na mudança da mentalidade rasteira, assumindo um paradigma firmado nos direitos humanos e nos avanços da ciência, no respeito ao próximo em seu valor superlativo e inegociável – como exemplo de uma gestão fundamentada na vida em sua maravilhosa diversidade.
         A mentalidade do tipo de capitalismo guiada pela mentalidade rasteira é simplista, nefasta e cultiva suas estratégias há séculos, com a mesma eficiência que fez calar idiomas, destruir florestas e o DNA da vida que pulsa generosa, como cantou o poeta ao afirmar que “nossos bosques têm mais vida e nossa vida no teu seio mais amores”.
         Há milênios os chamados vencedores utilizam-se do poder das armas, argumentos jurídicos tenenciosos e o anfiteatro legislativo para impor essa mentalidade rasteira e irresponsável sobre a vida de gente e bicho. São simplistas, adeptos da teoria facista da sobrevivência dos mais fortes, e simplórios nessa mentalidade da força bruta. Buscam transformar tudo em dinheiro virtual – fechando os olhos para a convivência inteligente do ser humano com o meio ambiente. Porém os que querem enriquecer de forma rápida e garantir lucros à custa da destruição do solo e da biodiversidade – de onde vem a contaminação da água, o desequilíbrio climático e o extermínio de espécies – buscam na ignorância e na cobiça parlamentar forjar leis que garantam o avanço dessa mentalidade rasteira, lesa humanidade, além do Serrado e da Floresta Atlântica, quase totalmente destruídos.
         Suas estratégias de desocupação não são evidentes como no projetado extermínio de judeus, pelos nazistas – porém perseverantes, levando gente livre, vivendo sob as bênçãos da natureza e em relativa harmonia com as outras espécies, ao exílio em favelas urbanas – minando uma convivência que deu certo, através de milênios, antes da mentalidade rasteira. Essa  mentalidade domina também sociedades nominalmente ‘socialistas’ que legalizaram o autoritarismo e impõem regime de servidão a seus cidadãos e, dessa forma, competindo com vantagem imoral sobre democracias, levando a sucatização da indústria brasileira – frente a qual o governo age de forma passiva, para não dizer cúmplice, e, por isso, constrangido a submeter-se a um modelo pernicioso que parece crescer ameaçando a estabilidade dos regimes democráticos do ocidente.
         Durante séculos o Brasil foi sendo devorado pelo esquema cartorário e fraudulento – sob a cumplicidade dos poderes e seus personagens: os grileiros de terras, os que utilizavam artifícios de projetos de construção de estradas de ferro e rodovias – com direito a utilizarem quilômetros de cada margem da mesma – que geralmente não era construída e, no entanto, terra ficava com os autores desses projetos e seus sócios, de mentalidade rasteira. Essa prática possivelmente continua a ser utilizada no avanço da franja, onde convive com o medieval e com o capitalismo comunista em seu sonho de um mundo sem Deus e sem liberdade, sem direitos a não ser o dos adeptos de carteirinha do partido.
Outra estratégia está ligada a manutenção do sistema de produção da energia elétrica. No país do Sol investe-se bilhões de dólares para avançar sobre rios e florestas sob o argumento do blak-out iminente. As cidades precisam ser iluminadas para manter o desvairado mundo do entretenimento: pão e circo, a velha dupla para ludibriar o empobrecimento da alma. Assim, esquartejam-se florestas sob o argumento do “progresso”, “divisas”, “exportação”, “balança comercial”, etc.  Dessa forma os espertalhões daqui unem-se ao olho gordo internacional em sua sanha devastadora, em busca de riquezas e dominação internacional. Na região onde se pretende construir novo e fantástico lago – “Belo Monte” -  ocorre a devastação de madeiras nobres, que serão exportadas em toras – para os palácios socialistas da Ásia ou para os castelos da Europa e, mesmo, para os mega-shoppings americanos Retiram-se, depois o ouro, o diamante, os minérios exportados a granel – sem significativa geração de empregos. Os destituidos de seu habitat, como sempre, mão de obra barata e descartável! Paralelamente marcha a vegetação rasteira da soja e outros transgênicos – fazendo do campo, outrora rico em nutrientes e microrganismos, uma terra contaminada por venenos – vários dos quais proibidos em seus países de origem. Isso em aparente benefício de minoria que rói o osso do poder – mesmo à custa da própria alma - porque a liberdade e o estado de direito, em regimes aparentemente democráticos, são privilégio de uma minoria, cuja mentalidade – apesar da altura de seus palácios – é rasteira, apesar de soberba. Os defensores dessa perpetuação do atraso, em sua política predatória, alegam que os índios estão querendo terras demais – como se os benefícios da vida selvagem fossem circunscritos apenas à sua sobrevivência. Não percebem o manancial de riquezas inesgotáveis dos biomas!. Nessa mentalidade, rasteira como um campo de soja, avançam os subprodutos de outros interessados: os fabricantes de agrotóxicos que contaminarão os rios e mananciais subterrâneos; os contrabandistas de venenos através de fronteiras mal cuidadas.
Por outro lado, se junta a projetos hidrelétricos o capital francês, o interesse japonês, o apetite chinês ao som tupiniquim da ‘internacional socialista’ – cujo socialismo é rótulo, embalagem de um regime perverso.Porque não buscar alternativas como ocrre nos países escandinavos onde o socialismo é real e não uma mentira mil vezes repetida?
Os personagens dessa mentalidade rasteira, antes de tudo, são “socialites” e todos querem figurar em HD no rol da fama.

Há necessidade de que os cientistas, antropólogos, parlamentares, mestres, poetas, ambientalistas, teólogos, agricultores que amam a terra que cultivam, e outros, que almejam um Brasil generoso para seus cidadãos e sustentável para as novas gerações e para o mundo, se unam sob o incentivo e encorajamento de um governo que honre a Democracia real e prevaleça sobre a mentalidade rasteira.
                                                                                            (Jose J. de Azevedo – 10.2012)


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