10 de outubro de 2012


A Biodiversidade e a 

mentalidade Rasteira

         
 Em nosso vasto Brasil viceja uma mentalidade rasteira, simplista, porém perniciosa e empobrecedora. Desde a sua descoberta essa mentalidade truculenta avançou sobre o País das Nações Indígenas. As terras foram sendo ocupadas graças ao conluio de políticos, militares e grileiros – isso depois das famosas entradas & bandeiras, na era do extermínio ou escravidão e deportação de índios, o saque do ouro, diamantes e terras.  O binômio “almas para o papa e terras para a coroa” ganhou novos contornos com o advento da República.
         Ao contrário das novelas da tevê, com suas aberrações urbanas, seu enredo e sua trilha sonora continuam a avançar sobre os últimos territórios a serem devastados por um tipo de civilização fundada no atraso espiritual, no desprezo ao ser humano em sua dignidade como ser “criado à imagem e semelhança de Deus” e na depredação do patrimônio natural cujos benefícios vão além das fronteiras do País – pois a terra é uma só e o todo interage e influencia cada uma das partes, e vice-versa. É fundamental que o Brasil avance na mudança da mentalidade rasteira, assumindo um paradigma firmado nos direitos humanos e nos avanços da ciência, no respeito ao próximo em seu valor superlativo e inegociável – como exemplo de uma gestão fundamentada na vida em sua maravilhosa diversidade.
         A mentalidade do tipo de capitalismo guiada pela mentalidade rasteira é simplista, nefasta e cultiva suas estratégias há séculos, com a mesma eficiência que fez calar idiomas, destruir florestas e o DNA da vida que pulsa generosa, como cantou o poeta ao afirmar que “nossos bosques têm mais vida e nossa vida no teu seio mais amores”.
         Há milênios os chamados vencedores utilizam-se do poder das armas, argumentos jurídicos tenenciosos e o anfiteatro legislativo para impor essa mentalidade rasteira e irresponsável sobre a vida de gente e bicho. São simplistas, adeptos da teoria facista da sobrevivência dos mais fortes, e simplórios nessa mentalidade da força bruta. Buscam transformar tudo em dinheiro virtual – fechando os olhos para a convivência inteligente do ser humano com o meio ambiente. Porém os que querem enriquecer de forma rápida e garantir lucros à custa da destruição do solo e da biodiversidade – de onde vem a contaminação da água, o desequilíbrio climático e o extermínio de espécies – buscam na ignorância e na cobiça parlamentar forjar leis que garantam o avanço dessa mentalidade rasteira, lesa humanidade, além do Serrado e da Floresta Atlântica, quase totalmente destruídos.
         Suas estratégias de desocupação não são evidentes como no projetado extermínio de judeus, pelos nazistas – porém perseverantes, levando gente livre, vivendo sob as bênçãos da natureza e em relativa harmonia com as outras espécies, ao exílio em favelas urbanas – minando uma convivência que deu certo, através de milênios, antes da mentalidade rasteira. Essa  mentalidade domina também sociedades nominalmente ‘socialistas’ que legalizaram o autoritarismo e impõem regime de servidão a seus cidadãos e, dessa forma, competindo com vantagem imoral sobre democracias, levando a sucatização da indústria brasileira – frente a qual o governo age de forma passiva, para não dizer cúmplice, e, por isso, constrangido a submeter-se a um modelo pernicioso que parece crescer ameaçando a estabilidade dos regimes democráticos do ocidente.
         Durante séculos o Brasil foi sendo devorado pelo esquema cartorário e fraudulento – sob a cumplicidade dos poderes e seus personagens: os grileiros de terras, os que utilizavam artifícios de projetos de construção de estradas de ferro e rodovias – com direito a utilizarem quilômetros de cada margem da mesma – que geralmente não era construída e, no entanto, terra ficava com os autores desses projetos e seus sócios, de mentalidade rasteira. Essa prática possivelmente continua a ser utilizada no avanço da franja, onde convive com o medieval e com o capitalismo comunista em seu sonho de um mundo sem Deus e sem liberdade, sem direitos a não ser o dos adeptos de carteirinha do partido.
Outra estratégia está ligada a manutenção do sistema de produção da energia elétrica. No país do Sol investe-se bilhões de dólares para avançar sobre rios e florestas sob o argumento do blak-out iminente. As cidades precisam ser iluminadas para manter o desvairado mundo do entretenimento: pão e circo, a velha dupla para ludibriar o empobrecimento da alma. Assim, esquartejam-se florestas sob o argumento do “progresso”, “divisas”, “exportação”, “balança comercial”, etc.  Dessa forma os espertalhões daqui unem-se ao olho gordo internacional em sua sanha devastadora, em busca de riquezas e dominação internacional. Na região onde se pretende construir novo e fantástico lago – “Belo Monte” -  ocorre a devastação de madeiras nobres, que serão exportadas em toras – para os palácios socialistas da Ásia ou para os castelos da Europa e, mesmo, para os mega-shoppings americanos Retiram-se, depois o ouro, o diamante, os minérios exportados a granel – sem significativa geração de empregos. Os destituidos de seu habitat, como sempre, mão de obra barata e descartável! Paralelamente marcha a vegetação rasteira da soja e outros transgênicos – fazendo do campo, outrora rico em nutrientes e microrganismos, uma terra contaminada por venenos – vários dos quais proibidos em seus países de origem. Isso em aparente benefício de minoria que rói o osso do poder – mesmo à custa da própria alma - porque a liberdade e o estado de direito, em regimes aparentemente democráticos, são privilégio de uma minoria, cuja mentalidade – apesar da altura de seus palácios – é rasteira, apesar de soberba. Os defensores dessa perpetuação do atraso, em sua política predatória, alegam que os índios estão querendo terras demais – como se os benefícios da vida selvagem fossem circunscritos apenas à sua sobrevivência. Não percebem o manancial de riquezas inesgotáveis dos biomas!. Nessa mentalidade, rasteira como um campo de soja, avançam os subprodutos de outros interessados: os fabricantes de agrotóxicos que contaminarão os rios e mananciais subterrâneos; os contrabandistas de venenos através de fronteiras mal cuidadas.
Por outro lado, se junta a projetos hidrelétricos o capital francês, o interesse japonês, o apetite chinês ao som tupiniquim da ‘internacional socialista’ – cujo socialismo é rótulo, embalagem de um regime perverso.Porque não buscar alternativas como ocrre nos países escandinavos onde o socialismo é real e não uma mentira mil vezes repetida?
Os personagens dessa mentalidade rasteira, antes de tudo, são “socialites” e todos querem figurar em HD no rol da fama.

Há necessidade de que os cientistas, antropólogos, parlamentares, mestres, poetas, ambientalistas, teólogos, agricultores que amam a terra que cultivam, e outros, que almejam um Brasil generoso para seus cidadãos e sustentável para as novas gerações e para o mundo, se unam sob o incentivo e encorajamento de um governo que honre a Democracia real e prevaleça sobre a mentalidade rasteira.
                                                                                            (Jose J. de Azevedo – 10.2012)


5 de junho de 2012

LIBERDADE DE PENSAMENTO SOB AMEAÇA NO BRASIL?

MINUTA DE UM NOVO CÓDIGO
BRASILEIRO DE TELECOMUNICAÇÕES
AMEAÇA ESTADO DE DIREITO


Sob o manto de uma atualização do código brasileiro de telecomunicações está embutida mais uma ameaça ao direito de livre expressão do pensamento, da opinião e da religião, no Brasil.
O texto modula a legislação de forma a mumificar conquistas democráticas no Brasil, após o regime militar – que não ousou ameaçar o direito a divulgação do discurso, das idéias e ideais cristãos, no Brasil.
A denúncia foi veiculada primeiramente na Folha de São Paulo de 04.06.2012: “Representantes dos evangélicos no Congresso disseram ontem que o governo enfrentará oposição das denominações religiosas se proibir o aluguel de canais e horários na programação de rádio e televisão” – conforme reportagem de Cátia Seabra e Gabriela Guerreiro, na Folha.
O impacto de um código dessa forma adulterado não apenas iria contra o Estado de Direito. O alvo principal seria a Igreja Evangélica. A Igreja católica seria a menos atingida – em curto prazo – pois suas instituições já dispõem do privilégio de ter concessões a nível nacional de diversos canais de televisão e uma extensa rede capilar de radiodifusão. Porém, se não houver apoio de setores da Igreja católica contra essa ameaça possivelmente será ela a próxima vitima.
O Estado, conforme a Constituição, é laico. Não tem o direito de interferir na manifestação pública, na cultura popular, no seu modo de ser, viver e crer. Porém um dos artigos determina que “É vedado o proselitismo de qualquer natureza no serviço de radiodifusão com finalidade comunitária”. Vetar o proselitismo é justamente a palavra que quer calar a boca de pessoas e instituições religiosas que, de uma forma ou outra, ensinam ao povo os preceitos e valores bíblicos. Prosélito é o “indivíduo convertido a uma doutrina, idéia ou sistema; sectário, adepto, partidário”.
Neste caso, Senhora Presidenta e Senhor Ministro das comunicações, os senhores estariam apontando ao Brasil um caminho semelhante ao da Coréia do Norte ou do Talibã afegão! A restrição genuinamente autoritária, nesse caso, abateria também programas culturais e toda tendência a formação da opinião e da reflexão, no Brasil. O que faz um programa como o lamentável BBB da Globo? Proselitismo! A intenção subjacente de novelas e outros programas é levar as pessoas a escolher entre os comportamentos sugeridos. Cabe ao telespectador, ou ao ouvinte de rádio optar ou não – baseado em seu foro íntimo e sua capacidade de discernir e escolher – um direito universalmente reconhecido; pelo menos em democracias que honram a liberdade de opinião e expressão.
Conforme a reportagem da Folha, “o deputado Silas Câmara (PSB-AM), evangélico e membro da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, as redes comerciais têm direito de utilizar a grade alugada para "se viabilizar". "O governo só faria isso se quisesse deixar muito claro que seria uma retaliação contra a liberdade religiosa no país. Duvido que vá fazer." A Democracia é o governo do povo pelo povo e para o povo. A ditadura e o autoritarismo são a imposição de uma minoria, constelada em interesses convergentes, sobre a população majoritária. Que essa minuta de mudanças no Código Brasileiro de Telecomunicações seja reavaliada – afinal o discurso de posse da Exmª Senhora foi o de governar sem discriminações, em pleno respeito a Constituição Brasileira e aos direitos humanos. A presidenta representa no Brasil o anseio de milhões de brasileiros que não se curvaram frente ao arbítrio de um regime autoritário.
Tanto a Internet, como a mídia em geral, são caixas de ressonância da opinião e da reação ao que se propaga nos meios de comunicação – cabe ao povo fazer suas escolhas, para isso não pode ser limitado. Já dizia, há cerca de cinco mil anos atrás o sábio chinês Lao-Tsé: “O melhor governo é o que menos governa”. – deve trabalhar mais e impor menos, creio eu seja o sentido da frase. O atual código cumpre perfeitamente seu papel de regulador das telecomunicações; uma mudança para piorar é insensata e prejudicial ao avanço das instituições. O povo cresce nos embates e conflitos, e posturas, na livre manifestação das idéias.

Ao governo não cabe o papel de censor. A moderação contra excessos que atentem contra direitos de vulneráveis, crianças e adolescentes, deve ser exercida. É obrigação do Estado, como legislador, executivo e judiciário coibir atentados a integridade e aos direitos constitucionais do cidadão e da população – e não o contrário.

30 de abril de 2012

VETA DILMA!

Veta o Código Florestal adulterado

Milhões de pessoas têm utilizado  a Internet  -  o meio mais democrático e de maior amplitude social  -  para manifestar rejeição ao novo código florestal aprovado recentemente pelo Senado Federal. O texto aprovado é uma afronta a inteligencia brasileira e mais um atentado ao Brasil real, aos povos da floresta, as nações indígenas com centenas de idiomas, que vivem e preservam o maior patrimonio genético da humanidade - juntamente com nações indigenas de regiões fronteiriças ao Brasil.
VETA DILMA! Diga não a uma casta de banqueiros, corporações multinacionais, grileiros de terra, contrabandistas de madeira de lei, desmatamento ilegal - que através de nossa história vem devorando os recursos que pertencem a humanidade. Não vamos ficar na rabeira daqueles que andam na marcha ré da História!
É fundamental que o Brasil reaja contra esse projeto. A Presidenta Dilma é a representante do povo brasileiro, pelo qual foi eleita e sua posição deve ser em benefício desse povo, daqueles que, há milenios,  aprenderam a viver de maneira sustentável e em equilibrio com a natureza - e que podem ensinar a chamada "civilização" a viver sem destruir a própria casa (nosso planeta).
Reaja, faça parte daqueles que influenciam e mudam a história para melhor! Participe do Manifesto da LIGA DAS FLORESTAS! Milhões de pessoas vem se manifestando através de e-mails, blogs, redes sociais, manifestações populares. Diga também: VETA DILMA! (José J. Azevedo)


23 de abril de 2012

VIDA MODERNA - Frei Betto


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelos produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...' 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse: 'Tenho aula de meditação! Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, autoestima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.' Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:...
 
"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz"!!!

3 de fevereiro de 2012

NOSSO TEMPO SOMOS NÓS

 
O titulo acima se refere a uma afirmação de Carl Gustav Jung, um dos pais da psicanálise. Filho de um pastor protestante foi marcadamente influenciado pelo cristianismo – apesar de sua formação acadêmica eclética. Em várias ocasiões defendeu a espiritualidade real como uma das geratrizes da vida psicológica saudável. Foi aluno de Sigmund Freud e, a nosso ver, superou seu mestre que afirmava que o comportamento humano sempre é derivado de uma causa
de fundo sexual. Jung rejeitou essa unilateralidade incluindo outras motivações, especialmente à que diz respeito ao espírito do homem.
Nossa intenção é meditar um pouco sobre nosso tempo, baseados na afirmativa inspirada de Paulo: “Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade,
negando-lhe, entretanto, o poder
” (2 Timóteo 3.2-5). A frase de Jung de que “nosso tempo somos nós” cabe perfeitamente como explicação para a realidade presente nas manchetes dos jornais e TVs. Não é difícil a gente manifestar repúdio veemente diante de fatos como o do austríaco que abusava de sua filha, mantendo-a presa por mais de 20 anos em seu bunker secreto; o assassinato da pequena Isabella – que a imprensa explora exageradamente – e tantos outros casos, desde o do cirurgião que matou a esposa com requintes de crueldade, passando pela mulher que torturava sua filha adotiva, até aos escândalos políticos que envergonham nosso País - que se sucedem em todo o planeta.
Referindo-se a esse tempo, descrito em sua segunda carta a Timóteo, onde os homens são “mais amigos dos prazeres que amigos de Deus”, o Senador Magno Malta – presidente da CPI da Pedofilia - desabafou em entrevista num programa da TV Bandeirantes: “Muitos personagens que aparecem em denúncias de atentados contra menores usam togas de juiz, anéis de doutor, gente da alta sociedade, padres e até pastores. Muitos deles também vítimas quando crianças”. Jesus destacou a falta de afeição natural como um dos sinais do tempo do fim: “O amor esfriará de quase todos, mas aquele que permanecer fiel [ao amor] será salvo. Seguindo o raciocínio brilhante de Jung, deixemos de lado nosso senso primário de justiça própria para encarar nossa própria realidade – especialmente se usamos o rótulo de cristão, monoteísta, católico ou cristão evangélico. Vamos meditar sobre nossa própria circunstância e enxergar nossa negligência e omissão – seja com relação aos pobres como aos ricos miseráveis de espírito. Quantas pessoas passam por nós e ficamos em silencio, com vergonha de dizer o nome de Jesus. Muitas vezes nos abstendo de um diálogo por medo e covardia.
Quantas pessoas poderiam ter sua história transformada por um abraço, uma palavra de estímulo, um convite para um café, a amizade sincera e não interesseira de fazer um novo membro dizimista da denominação. Somos, apesar de religiosos, também “egoístas, avarentos, jactanciosos”. Como Igreja, elegemos prioridades que contradizem os ensinos do Senhor da Igreja, para construir impérios religioso-financeiros e nos ufanar de nossos templos
majestosos, redes de rádio e TV, braços políticos, tapetes felpudos, ar condicionado, mordomias clericais, etc.
Condenamos os governos como se não fossemos, também, responsáveis pela miséria que nos cerca – porque somos omissos e esquecemos o que Jesus disse a respeito: “Os pobres vocês sempre terão consigo”. Somos, geralmente, interesseiros e queremos engordar as finanças das instituições eclesiásticas com recursos sovinamente granjeados – negando partilhar as bênçãos materiais e celestiais; somos, muitas vezes, “traidores” do verdadeiro Evangelho porque nos calamos diante das injustiças de nosso próprio redil; somos “enfatuados” (cheio de si; presumido, vaidoso, arrogante, fátuo) obcecados pelo sucesso ministerial mesmo que tenhamos que fazer concessões ilícitas – complacentes -frente a ovelhas que se desviam e pecam porque nossa causa e a causa de nosso grupo ficaram mais importantes que a Causa de Cristo.
Nossa época somos nós e devemos discerni-la principalmente a partir de nós mesmos, como cristãos, individualmente, e como parte da Igreja.
A Igreja, em sua prática, em seu papel de testemunha, é também responsável pelas mazelas do nosso tempo. Quando a Igreja deixa de refletir com fidelidade a imagem de Cristo – vivendo-a no dia a dia de um mundo em crise e em transformação – deixa de ser um referencial legitimo e confiável para a sociedade. Sabemos como a mídia nega revelar o que ela tem de bom, saudável e magnânimo – porém tem a obrigação de ser sal da terra (o que dá sabor à vida) e luz do mundo – deve ser modelo e guia para aqueles que ainda não tiveram a ventura de ser contemplado pela misericórdia de Deus.
Jesus, referindo-se aos religiosos de seu tempo clamou: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque rodeais o mar e a terra para fazer um prosélito; e, uma vez feito, o tornais filho do inferno duas vezes mais do que vós!” (Mt 23.15).
Diante de fatos tão amargos que vemos em jornais e na TV devemos nos prostrar diante de Deus e clamar por misericórdia. É fácil jogar pedras, acusar e atribuir culpa aos “ímpios e pecadores” que não fazem parte de nossa congregação – difícil, porém, é tirar o argueiro dos próprios olhos. Ah! É tempo de lamentar e chorar nossos próprios pecados e ver como estamos, como Igreja em nosso tempo, perdendo o rumo da Igreja plantada por Jesus Cristo no coração de seus apóstolos. É tempo de arrependimento e de buscar reformar a nós mesmos e a nossa comunidade de fé – em submissão ao Senhor da Igreja e Sua Palavra.
Da mesma forma que Martinho Lutero, em 1517, afixou as 95 teses no portal de Wittemberg, condenando os erros e apostasia da Igreja de seu tempo, devemos também denunciar nossos próprios erros e apostasias – sejamos históricos, católicos, pentecostais, liberais ou neo-pentecostais. Possamos olhar e imitar a Igreja de Tessalônica, por exemplo: “Damos, sempre, graças a Deus por todos vós, mencionando-vos em nossas orações e, sem cessar, recordando-nos, diante do nosso Deus e Pai, da operosidade da
vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição
” (1Tessalonicenses 1.2-4). Era uma Igreja cuja fé não era morta, nem fingida – mas operante; que suava a camisa pela Causa de Cristo; era uma Igreja capaz de amar o seu próximo mesmo que para isso tivesse que negar a si mesma e pisar o próprio egoísmo; era uma Igreja que, de fato e de verdade – mesmo em tribulação – tinha sua esperança firmada em Cristo e não no materialismo humanista que faz com que nosso culto seja centrado no homem e em suas necessidades (muitas vezes mesquinhas) – e não na glória de Deus.
Esses três pilares: a fé, o amor e a esperança vividos conforme a vontade de Deus (e não segundo a carne, o mundo e o diabo) é que revelavam a condição daqueles irmãos como, realmente, eleitos de Deus. Possamos, como os tessalonicenses, deixar os ídolos e nos converter de fato e de verdade, para servir o Deus vivo e verdadeiro, aguardando o Filho, Jesus, que nos livra da ira vindoura (1 Tes 1.9-10).
José J Azevedo