8 de julho de 2015

NASCIMENTO, VIDA E MORTE DE UM PINHEIRO

Casarão dos Guimarães ao lado do jovem pinheiro,
 derrubado em agosto de 2014
 Daniel com foto da família


 MEMÓRIA DE DANIEL GUIMARÃES
  Há quase um ano tombava um dos mais belos e majestosos pinheiros da Rua Max Wolff  Filho, em São Mateus do Sul-PR. Ele ficava ao lado direito do casarão dos Guimarães – como era conhecida a casa de alvenaria mais antiga da cidade. Uma semana antes da morte do pinheiro conversei com o Daniel Guimarães. Era começo de uma noite de primavera e falamos sob a frondosa araucária.  Perguntei sobre o pinheiro e ele contou-me algo fascinante:

- “Esse é um pinheiro fêmea. No final da tarde, na época da polinização, quando sopra o vento do oeste, dá pra ver olhando contra o sol  uma nuvem de pólen voando em direção a esse pinheiro fêmea, para fertilizar suas flores. Vem dos pinheiros machos do vizinho, Sr. Francisco Kaminski”.
No dia 18.11 voltei a falar com o Daniel, que me recebeu em sua casa, que fica nos fundos do terreno do antigo casarão. Daniel contou-me que seu bisavô, Francisco Ferreira Guimarães, construiu o casarão em 1926. O sobrado foi dado a seu filho e nora, Simplício Prohmann Guimarães e Ilda Schneider – seus avós. 
O casarão foi inaugurado com uma festa de casamento de Jorge Kantor e Idalina Prohmann ,  realizado há 88 anos. Jorge era filho de Guilherme Kantor,  músico e pioneiro do transporte rodoviário na região. Em 1921, levava passageiros de São Mateus do Sul a Três Barras em sua diligência motorizada.
- “Nasci neste endereço há 49 anos, filho de Anselmo e Orlandina Oliveira Guimarães. Meu pai nasceu na barra do rio Potinga em 1938. Minha mãe é da região de Santa Maria do Oeste, perto de Pitanga”.


Nilo Sérgio plantou as araucárias
Sra Ilda Schneider



O PINHEIRO

Conta Daniel que o pinheiro foi plantado por um menino de 12 anos, chamado Nilo Sérgio Schneider Guimarães, seu tio, em 1944. Naquele mesmo dia o menino plantou, do outro lado da casa, um pinheiro macho. Esse pinheiro foi cortado há cerca de 50 anos. Na época a maioria não sabia que era necessária a presença de pinheiros de ambos os sexos vizinhando, para haver a pinha e, dela, o pinhão. Tem que haver a união entre macho e fêmea para a continuidade da raça!
O jovem pinheiro fêmea, de 70 anos, tinha cerca de 80 polegadas de diâmetro, quando foi derrubado. Daniel lembra com saudade da sua presença amiga, junto ao portão de entrada de sua casa: “Eu, meus cinco irmãos, primos, amigos, brincávamos à sombra do pinheiro . Ao contrário do que se pensa ele nunca deu prejuízo a ninguém. As únicas dádivas que caiam eram o sapé, com o qual a gente fazia fogo em fogão de lenha e os pinhões que caiam ao debulhar das pinhas”. 
Quando a sinistra motosserra roncou e atravessou impiedosamente o pinheiro a família não estava em casa, que fica nos fundos do lote. Daniel conta que ficou triste ao chegar e vê-lo tombado. Fala como se a árvore fosse parte da família:
- “Não havia necessidade de derrubá-la, porque ficava na quina do lote, próximo da calçada, ao lado do acesso para nossa casa”.
Conta que a araucária era da espécie caiova, que produz pinhões maiores, e a bitola do tronco alcança grande dimensão. Já a espécie São José produz  mais cedo, em março, mas o pinhão é miúdo e menor o diâmetro do tronco.
- “Ela abrigava um ninho de Curucaca – ave maior que uma galinha, do bico comprido. Produzia cerca de 30 pinhas, no ano mais forte – pois ano sim, ano não a produção decresce. Quando era mais jovem eu via muitas gralhas, tucanos e baitacas fazerem pouso nessa araucária”.
O corvo e o João de Barro também gostam de fazer seus ninhos em pinheiros.
Daniel, enquanto contava essas histórias, procurava fotos da família, do Nilo Sérgio, que nunca se casou, mas enriqueceu a paisagem com suas araucárias. Faleceu há oito anos – não teve a tristeza de ver sua árvore tombada sobre o chão onde ficava o casarão dos Guimarães, que também não resistiu a estes tempos em que a cobiça fala mais alto que o coração, anuviando o bom senso. Os autores da ilegalidade foram acionados pela PM – e estão respondendo processo. Nenhum pinheiro, urbano ou rural pode ser cortado – a não ser em casos especiais, após a aprovação do IAP. Tal foi a corrida pela madeira que a espécie corria perigo de extinção.
Dessa forma a cidade vai perdendo referências, tradições, paisagem e  seu patrimônio histórico – além da cultura ligada à natureza e mais próxima da humanidade, que precisa de ser incentivada.
José Julio de Azevedo, 19.11.2014

 
Daniel Guimarães com foto da família e pequeno, 
vestido de marinheiro, com irmãos, aos 5 anos.