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Casarão dos Guimarães ao lado do jovem pinheiro,
derrubado
em agosto de 2014
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| Daniel com foto da família |
MEMÓRIA DE DANIEL GUIMARÃES
Há
quase um ano tombava um dos mais belos e majestosos pinheiros da Rua Max Wolff Filho, em São Mateus do Sul-PR. Ele ficava ao
lado direito do casarão dos Guimarães
– como era conhecida a casa de alvenaria mais antiga da cidade. Uma semana antes
da morte do pinheiro conversei com o Daniel Guimarães. Era começo de uma noite
de primavera e falamos sob a frondosa araucária. Perguntei sobre o pinheiro e ele contou-me
algo fascinante:
-
“Esse
é um pinheiro fêmea. No final da tarde, na época da polinização, quando sopra o
vento do oeste, dá pra ver olhando contra o sol uma nuvem de pólen voando em direção a esse
pinheiro fêmea, para fertilizar suas flores. Vem dos pinheiros machos do
vizinho, Sr. Francisco Kaminski”.
No
dia 18.11 voltei a falar com o Daniel, que me recebeu em sua casa, que fica nos
fundos do terreno do antigo casarão. Daniel contou-me que seu bisavô, Francisco
Ferreira Guimarães, construiu o casarão em 1926. O sobrado foi dado a seu filho
e nora, Simplício Prohmann Guimarães e Ilda Schneider – seus avós.
O
casarão foi inaugurado com uma festa de casamento de Jorge Kantor e Idalina
Prohmann , realizado há 88 anos. Jorge
era filho de Guilherme Kantor, músico e pioneiro
do transporte rodoviário na região. Em 1921, levava passageiros de São Mateus
do Sul a Três Barras em sua diligência motorizada.
-
“Nasci
neste endereço há 49 anos, filho de Anselmo e Orlandina Oliveira Guimarães. Meu
pai nasceu na barra do rio Potinga em 1938. Minha mãe é da região de Santa
Maria do Oeste, perto de Pitanga”.
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| Nilo Sérgio plantou as araucárias |
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| Sra Ilda Schneider |
O
PINHEIRO
Conta
Daniel que o pinheiro foi plantado por um menino de 12 anos, chamado Nilo
Sérgio Schneider Guimarães, seu tio, em 1944. Naquele mesmo dia o menino
plantou, do outro lado da casa, um pinheiro macho. Esse pinheiro foi cortado há
cerca de 50 anos. Na época a maioria não sabia que era necessária a presença de
pinheiros de ambos os sexos vizinhando, para haver a pinha e, dela, o pinhão.
Tem que haver a união entre macho e fêmea para a continuidade da raça!
O
jovem pinheiro fêmea, de 70 anos, tinha cerca de 80 polegadas de
diâmetro, quando foi derrubado. Daniel lembra com saudade da sua presença
amiga, junto ao portão de entrada de sua casa: “Eu, meus cinco irmãos, primos,
amigos, brincávamos à sombra do pinheiro . Ao contrário do que se pensa ele
nunca deu prejuízo a ninguém. As únicas dádivas que caiam eram o sapé, com o
qual a gente fazia fogo em fogão de lenha e os pinhões que caiam ao debulhar
das pinhas”.
Quando
a sinistra motosserra roncou e atravessou impiedosamente o pinheiro a família
não estava em casa, que fica nos fundos do lote. Daniel conta que ficou triste
ao chegar e vê-lo tombado. Fala como se a árvore fosse parte da família:
-
“Não
havia necessidade de derrubá-la, porque ficava na quina do lote, próximo da
calçada, ao lado do acesso para nossa casa”.
Conta
que a araucária era da espécie caiova, que produz pinhões maiores, e a bitola do
tronco alcança grande dimensão. Já a espécie São José produz mais cedo, em março, mas o pinhão é miúdo e
menor o diâmetro do tronco.
-
“Ela
abrigava
um ninho de Curucaca – ave maior que uma galinha, do bico comprido. Produzia
cerca de 30 pinhas, no ano mais forte – pois ano sim, ano não a produção
decresce. Quando era mais jovem eu via muitas gralhas, tucanos e baitacas
fazerem pouso nessa araucária”.
O
corvo e o João de Barro também gostam de fazer seus ninhos em pinheiros.
Daniel,
enquanto contava essas histórias, procurava fotos da família, do Nilo Sérgio,
que nunca se casou, mas enriqueceu a paisagem com suas araucárias. Faleceu há oito
anos – não teve a tristeza de ver sua árvore tombada sobre o chão onde ficava o
casarão dos Guimarães, que também não resistiu a estes tempos em que a cobiça
fala mais alto que o coração, anuviando o bom senso. Os autores da ilegalidade
foram acionados pela PM – e estão respondendo processo. Nenhum pinheiro, urbano
ou rural pode ser cortado – a não ser em casos especiais, após a aprovação do
IAP. Tal foi a corrida pela madeira que a espécie corria perigo de extinção.
Dessa
forma a cidade vai perdendo referências, tradições, paisagem e seu patrimônio histórico – além da cultura
ligada à natureza e mais próxima da humanidade, que precisa de ser incentivada.
José Julio de Azevedo, 19.11.2014
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Daniel Guimarães com
foto da família e pequeno,
vestido de marinheiro, com irmãos, aos 5 anos.
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